Diário de Bordo: Cicloviagem Matutu

Existe em Patos de Minas uma turma que não se contenta em pedalar sempre nas mesmas trilhas. Um de seus integrantes é o Lúcio Flávio. Ele é agrônomo e formou em Lavras, uma região perfeita para a prática do mountain bike. Ele então convidou o restante da turma para conhecer esta região ainda não explorada por bikers, o Vale do Matutu. Até que este sonho fosse possível de ser realizado, foram várias reuniões para definirmos estratégias e logística dessa viagem. O roteiro ficou por conta do Luciano Pit Stop que pesquisou as trilhas no google earth e inseriu-as em seu GPS.

Confira o diário de bordo desta aventura, escrito por Henrique Cury. Não deixe de assistir aos vídeos no fim do diário de bordo.

“Matutu significa, na língua indígena, Cabeceira Sagrada”

O Matutu é um vale majestoso aos pés da Serra do Papagaio. Sua paisagem de rara beleza abriga  excelsas forças naturais que inspiram a alma e renovam o corpo. Lugar ancestral, segundo a lenda era aqui  onde as tribos indígenas  peregrinavam, reconhecendo a pureza e a magia de suas fontes e cachoeiras, que se derramam  das alturas.

Lúcio Flávio no Complexo da Zilda - Trekking - Cachoeira Racha da Zilda

Lúcio Flávio no Complexo da Zilda – Trekking – Cachoeira Racha da Zilda

Viajamos cerca de 6 horas até lavras onde encontramos com Lúcio e seguimos até Carrancas – MG, ao chegarmos já nos encantamos com a natureza deslumbrante e as imensas e íngremes montanhas que marcam o cenário regional.

Fomos muito bem recebidos por João – o dono da Pousada Pontal do Moleque e a expectativa e a emoção do primeiro dia já nos contagiou , o entusiasmo era tanto que assim que chegamos fomos fazer um trekking nas mediações da Pousada para conhecer a cachoeira Racha da Zilda localizada no Complexo da Zilda.  Tínhamos certeza que essa viagem seria a maior aventura de nossas vidas. Jantamos um peixe com iguarias típicas da região, muito bem preparado pela esposa de João, Lucimar.

Fomos descansar ansiosos com o primeiro dia de trilha. “QUE VENHA MATUTU”.

A turma que encarou esta aventura.

A turma que encarou esta aventura.

 

1º dia – Trilha do Moleque: Pousada Pontal di Moleque rumo a Minduri.

Downhill de 7km

Downhill de 7km

39 km com ganho em elevação de 1355 mts, Trilha muito técnica com subidas e descidas longas, muitas pedras e areia pelo caminho.

07h00 – A galera se reuniu em frente a Pousada para as orações e foto oficial.

Bikers: Edson Veloso (Rosca), Giovane Braga, Henrique Cury, Henrique Nunes, Luciano Pit Stop, Lúcio Flávio, Márcio Abdala, Rômulo do Valle e Vandinho Caixeta.

Logo de cara enfrentamos uma subida de 4 km e uma descida de 2 km até chegarmos em um riacho onde nosso amigo Vandinho Caixeta nos surpreendeu com sua primeira de muitas “pérolas”: “QUE QUEBRADA É ESSA LUCIANO?” que significa lugar diferenciado,  realmente era um lugar perfeito, em todos ângulos que olhávamos éramos surpreendidos por uma paisagem mais bela que outra, a região formada por muitas rochas.

Romulo e Vandinho no tablado octogno na chapada do abanador

Romulo e Vandinho no tablado octogno na chapada do abanador

O lance era “SUBIR MONTANHA” e lá estávamos enfrentando mais uma. Chegamos a uma casa toda decorada  com artesanatos locais, onde havia uma escultura de São Francisco de Assis de aproximadamente 2 metros de altura. Colhemos uns limões do pomar da casa e nosso companheiro Lúcio fez um suco, seguimos até a Chapada do Abanador e avistamos no alto da montanha um tablado de madeira em forma de octógono. Ali, era como um mirante, pois podíamos ver toda a paisagem ao redor.

Ao som de Pink Floyd trilha sonora escolhida pelo companheiro Rômulo do Valle, fizemos nossa parada para o lanche e descanso para recompor as energias.

Nossa Senhora das Graças perfeitamente colocada em uma rocha nos abençoou bem no meio do caminho. Subidas, descidas puro moutain bike até escalarmos um rochedo rumo a Chapada das Perdizes e assim seguimos nossa trilha em “queda natural” outra “PEROLA” do nosso amigo Vandinho, por aproximadamente 4 km.  A galera pirou com a adrenalina que essa descida proporcionou.

17h00 – E assim chegamos ao primeiro Totem da estrada Real em Minduri-MG, nosso destino final deste dia.

 

O ponto de entrada da comunidade é o Casarão Matutu, uma construção de 1904

O ponto de entrada da comunidade é o Casarão Matutu, uma construção de 1904

2º dia – Trilha da Descida Abençoada: Rumo ao Vale do Matutu.

Ponte de madeira no Vale do Matutu

Ponte de madeira no Vale do Matutu

64 km com ganho em elevação de 1890 mts. 40 km de estradão até Aiuruoca e 24 km de muitas subidas até a Pousada Mandala das Águas.

Fomos recebidas calorosamente pelos moradores de Minduri, que ficaram entusiasmados com nossa aventura. Ficamos hospedados na Pousada Restaurante da Célia que também é o melhor restaurante da cidade.

Alimentados e com uma boa noite de sono estávamos ali mais uma vez prontos para seguir rumo a próxima cidade – Aiuroca-MG.

Aiuruoca e o Pico do papagaio ao fundo

Aiuruoca e o Pico do papagaio ao fundo

07h50 – Bikes prontas, GPS configurado, “simbora” subir montanha. Grande parte da trilha já realizada em estradão, até chegarmos às mediações de Aiuroca quando deparamos com uma descida que margeava uma mata e que permitia a vista do nosso próximo destino, o Pico do Papagaio no Vale do Matutu. Rômulo do Valle, Vandinho Caixeta, Luciano e Roska aceleraram e os demais economizaram um pouco, pois ainda tinha muita trilha pela frente. Foi quando chegamos ao final da descida e fomos presenteados com uma queda d’água onde eram formados poços de água cristalina, por isso batizamos a trilha de Descida Abençoada.

Jantar na Pousada Mandala das aguas

Jantar na Pousada Mandala das aguas

Chegamos em Aiuroca após 48 km por volta de 14:00 horas, o comércio estava aberto, estacionamos nossas bicicletas e devoramos tudo que tinha em uma padaria local. Estávamos decididos a seguir pedalando pelo Vale do Matutu por mais 14 km apesar das subidas que iríamos enfrentar até a Pousada Mandala das Águas.

17:30 – Chegada em Matutu: Paraíso seria a definição para o Vale do Matutu, no ponto mais alto o Pico do Papagaio permanece soberano e parece contemplar os que ali moram e visitam o lugar. Pousadas aconchegantes misturam com a natureza preservada, riachos de água cristalina cravadas por pedras que parecem ser colocadas estrategicamente para formar quedas e piscinas naturais e um silencio onde só era ouvido passos, água, respiração e o contato do pneu com a terra.

3º dia – Pousada Mandala das águas (Dia de descanso para conhecer a região)

Cachoeira Mata do Fundo

Cachoeira Mata do Fundo

O lugar já encanto ao entrar, cada detalhe foi planejado com todo carinho, o jardim, as fontes, árvores ornamentais e esculturas harmonizavam com o verde da grama e o azul do céu.

Acordamos e fomos buscar informações sobre a escalada do Pico do Papagaio. Rickson James Sluss, o proprietário da Pousada Mandala das Águas e membro da associação dos Amigos de Matutu, nos informou que para esta escalada era necessário que fossemos acompanhados por um guia. Como não seria possível, foi sugerido que visitássemos 2 cachoeiras próximas – Cachoeira do Meio e Cachoeira da Mata do Fundo, parte da galera seguiu este destino, Luciano, Rômulo e Vandinho.

Acesso ao Restaurante da Tia Iraci

Acesso ao Restaurante da Tia Iraci

A cachoeira da Mata do Fundo é a maior da região, cerca de 267 metros de queda repartida e seu acesso é por trilhas no meio da mata. Mountain Bike na veia foi o resumo de uma descida que misturava velocidade, técnica e muita adrenalina.

Eu (Henrique Cury), Geovane Braga, Márcio Abdala, Edson Roska, Henrique Nunes e Lúcio Flávio resolvemos ficar no restaurante da Tia Iraci, curtindo preguiça e degustando uma deliciosa comida mineira, sucos naturais com frutas da região, e uma hospitalidade grandiosa. O acesso a este restaurante é apenas por trilha, o que o torna bastante peculiar.

No final deste dia, voltamos para a Pousada, verificamos nossos equipamentos e fomos descansar aguardando o próximo dia.

Casarão Matutu

Casarão Matutu

 

4º dia – Trilha do Lado Lá – Rumo a Baependi-MG.

Saindo da Pousada Mandala das Aguas

Saindo da Pousada Mandala das Aguas

61 km com ganho em elevação de 1937 mts.

Nosso guia Luciano Pit Stop, sempre atento e querendo aproveitar o máximo a beleza da região alterou nosso trajeto onde passaríamos por uma cachoeira antes de enfrentarmos a grande e temida subida de 13 km.

Seguimos sentido a esta trilha e nosso companheiro Rômulo do Valle, sempre andando na frente e sem GPS, se perdeu. Então fui resgatá-lo para que pudéssemos seguir todos juntos.

Passamos pela cachoeira e começamos o grande desafio do dia – 13km só de montanha. Pedras de calçamento eram colocadas nas subidas mais íngremes, quem nos encontravam se admiravam e ficavam surpresos com nossa animação e força. O que de fato era admirável, pois éramos 9 bikers determinados.

Mirante depois da subida de 13 km

Mirante depois da subida de 13 km

Estávamos muito animados, pois de acordo com a programação, logo após teríamos muita descida de 7 km com desnível maior que a subida. Fizemos uma foto no topo e logo ali começava a descida. Alertamos a todos sobre os cuidados que deveríamos e fomos de “queda natural”.

Saldo da descida: 3 tombos, Henrique Cury, Vandinho e Giovane Braga, um capacete quebrado e uma mochila de Hidratação rasgada.

Para nossa surpresa, ainda havia muita trilha, cerca de 34 km para chegarmos a Baependi. Estávamos exaustos e com certeza este foi o dia de maior esforço.

Esforço recompensado quando chegamos à Pousada Cachoeirinha e fomos recebidos com um belo jantar.

 

5º dia – Trilha Estrada Real: Rumo a Pousada Pontal do Moleque.

Luciano em um Marco da Estrada Real

Luciano em um Marco da Estrada Real

74 km com ganho em elevação de 1536 mts.

Seguimos sentido a saída de Baependi e logo deparamos com o primeiro totem da Estrada Real, estes totens servem de orientação para peregrinos, nossa trilha de hoje seria realizada com 74km cruzando fazendas famosas como a Traituba (cidade-Cruzili), casarões, linhas férreas.

O dia foi marcado por uma mistura dos sentidos, superação, vontade de chegar, saudade de casa e uma sensação difícil de explicar, talvez seja aquele sentimento que só nós, amantes do Moutain Bike experimentamos quando realizamos nossas trilhas.

Fazenda Traituba -  teve a sua origem entre os anos de 1826 e 1831 e serviu para hospedar o Imperador D. Pedro I

Fazenda Traituba – teve a sua origem entre os anos de 1826 e 1831 e serviu para hospedar o Imperador D. Pedro I

Nosso companheiro Rômulo do Valle e Vandinho caixeta seguiram na frente, pois iriam fazer uma galinha caipira para nos receber, o restante seguiu pedalando junto contando piadas, fazendo fotos, principalmente meu caro Giovane Braga, Henrique Nunes imitando o Penhenheca (Pessoa conhecida em nossa Cidade – Patos de Minas), chamando o “Osquinha  patocina minha sworks”, Luciano aproveitando os últimos momentos para registrar cada instante, Marcio Abdala com seus comentários bacanas e claro nosso sempre saudoso Lúcio vibrando e comemorando o sonho realizado.

Foram 265 km ao total da cicloviagem superamos um ganho em elevações de 6.918 metros, descidas, escalamos rochedo, mas o que realmente marcou foi uma grande aventura de 9 caras cheios de um só sentimento: PEDALAR.

Gostaria de agradecer a todos pela companhia e também aqueles que direta e indiretamente contribuíram para realização desta cicloviagem e QUE VENHA MATUTU.

Assista aos vídeos desta aventura

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Comentários

5 Comentários para Diário de Bordo: Cicloviagem Matutu

  1. Giovane Braga disse:

    Simplesmente Surreal…

  2. Marcio Abdala disse:

    Cicloviagem inesquecivel com grandes amigos. Valeu Matutu!

  3. Lucio Rocha disse:

    Ficou muito bom o diário de bordo, parabéns ao Henrique, resumiu muito bem esta cicloviagem inesquecível ….

  4. Igor Simoes disse:

    Galera,

    Muito bom o relato!!! Minha esposa descobriu essa cicloviagem por acaso e estamos planejando de faze-la em breve… Teriam como voces mandarem mais detalhes de localizacao, principalmente se possivel as rotas de GPS?

    As fotos sao absurdamente bonitas e só de velas já fico arrepiado com a beleza.

    Abracos,

    Igor

  5. bruno disse:

    Parabens pelo relato!! Estou indo para o matutu passar o natal, voce teria com disponibilizar os dados do gps.
    Oque voce recomenda fazer saindo e voltando do Matutu?
    obrigado

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