Diário de Bordo: Cicloviagem Caminhos da Canastra – Outubro de 2013

Serra da Canastra, 18, 19 e 20 de outubro
Por Kenzo Alvarenga

Quero aqui, antes de tudo, registrar nossos agradecimentos ao Grande Luciano, um cara sério, sensato e companheiro, responsável por toda logística e organização deste memorável evento. Valeu mesmo! Esse pedal nunca será esquecido.

Finalmente chegou o tão esperado dia 17 de outubro de 2013. No horário marcado, às 17 horas, estávamos quase todos (Luciano, Lúcio, João Carlos, Marcos, Daniel, Dener, Tiago, Thiago, Olemar e eu) lá na Band Bike arrumando a bagunça para partirmos rumo ao pedal na Serra da Canastra. Arrumar a carga é um trabalhão que só! Tem que ajeitar devidamente as magrelas para não estragarem no transporte e todo cuidado é pouco, uma ciumeira danada… Tem que enrolar cobertor, panos, papelões, elásticos, fitas que não tem fim… mas as bikes merecem nossa atenção! O que agüentam e o que nos proporcionam não estão escrito. E isso confirmou após cada pedalada e mais ainda hoje, depois de concluirmos este pedal nervoso pelas montanhas de Minas.

image001

A ansiedade e a satisfação tomavam conta de todos. Já se passavam das 17 horas e ainda não tínhamos zarpado. Os atrasos nesse tipo de programa são quase inevitáveis, mas nada tira nossa alegria. O Wandim chegou tarde por uma boa causa: foi buscar a Rocky Mountain na capitarrrr (BH) e certamente estava mais elétrico que todos nós.

Antes da partida fomos prestigiados pela visita do amigo Rômulo do Valle, que dias antes machucou o joelho e teve que se submeter a uma cirurgia e por isso cancelou a ida com a turma. Mas já em franca recuperação e pedalando inclusive!

Já se aproximavam às 18 horas quando realmente partimos rumo a Pousada do Rio Turvo, próxima a Capitólio/MG, de onde partiríamos cedo no dia seguinte rumo às montanhas. Chegamos quase à meia noite e fomos todos dormir, pois no dia seguinte começava nossa inédita travessia de mais de 150km e ganho de elevação de mais de 4000m.

image002

1º dia: Pousada do Rio Turvo a Pousada Mata do Engenho

Amanheceu e começamos a preparar as bikes e os mantimentos. As mochilas estavam cheias, mas era preciso. Nesses pedais de “dia inteiro”, temos que contar com as eventualidades e não pode faltar água nem alimentos doces e salgados.

image003

Tomamos um café da manhã excelente. Tiramos a foto da partida e, agora sim, fomos ao que viemos: pedalar.

image004

A turma estava ansiosa com as primeiras pedaladas pela estradinha saindo da pousada, várias piadinhas e brincadeiras logo nos primeiros quilômetros. Não sabíamos bem o que nos aguardava. O Thiagão, bem humorado que só, já no primeiro morro há uns 500m, desceu da bike e falou que já estava morto hehehehe…  há uns 10km a frente ele repetiu a brincadeira, mas já não riu nem um pouco hahahahaha.

O tempo foi generoso, estava nublado e fresco e vez ou outra caia uma chuva fininha muito refrescante. Ao chegarmos na terra para iniciar a trilha, fizemos uma oração agradecendo aquele momento e os dias que viriam: obrigado meu Deus!

Estávamos radiantes. Pulamos uma porteira e pronto. Começamos a “subir montanha”! O chão de cascalho e pedras lajeadas coroou a subida. A chuva deixou o piso muito escorregadio, o que exigiu muito equilíbrio para subir o morrão, ou melhor, a montanha. Tinha trechos com “escadarias” de pedra e subi-las pedalando não tem como descrever… o corpo e a bike trabalhando junto e vencendo os obstáculos do pedal…. é show! Só experimentando para saber! O visual ao ir escalando era incrível. Braços do Lago de Furnas se entendendo até onde não víamos mais… o céu e seu maravilhoso acinzentado e as nuvens passando baixo nos precipícios foram cenas inesquecíveis!

image006 image005

Após mais de 10 km de subida chegamos ao topo e registramos imagens maravilhosas. Foi-se a primeira subidona! Dura! E ainda havia muitas pelo caminho, mas estávamos animados!

image007 image008

Em seguida pegamos uma descida muito técnica até a 1ª cachoeira (Cachoeira da Pedreira ou Abismo), onde comemos algo. Trilhas com muito cascalho e pedras fizeram nossa alegria e apuraram as habilidades de todos, tenho certeza. O duro foi conferir o GPS… tínhamos rodado pouco mais de 17km e gasto mais de 3 horas. A trilha era muito travada, sobe, desce, pedras, cachoeira e o pedal não rendia. Isso me fez exercitar a calma (que as vezes me falta) e perceber que não adianta estressar, a final, tínhamos “só” o dia todo para completar o percurso!! Tocamos em frente e saímos da cachu. Subimos uma trilha top na montanha e passamos por uma fazenda de extração de pedras desativada, então começamos a contornar o topo. O piso era só pedra, totalmente pedalável, incrível. Do alto avistamos a serra objetivo do 3º dia de pedalada, o Parque da Serra da Canastra.

image009 image010

image011

A medida que o pedal foi evoluído as dificuldades foram aumentando. Era morro que não acabava mais e subíamos a 4-5-6 km/h quando não empurrando!

image012

Uma lição aprendemos na Canastra: ver que em seguida desceríamos não era confortante como deveria ser, pois todas as trilhas que descemos eram nervosas, com muitas pedras e cavas. Corpo travado e em pé na bike em tempo integral. Braços e costas no limite. Felizmente não houve incidentes.

Programamos, inocentemente, já que conhecíamos o terreno só pelo google earth, um traçado por trilhas de 65Km mais ou menos. Mas começamos a perceber que só seria possível se chegássemos lá pelas 22h na pousada programada (Mata do Engenho). Tivemos certeza disso ao escalar outra montanha da qual avistamos um vale onde se localizava um possível ponto de apoio, a Pousada Canteiros. Do alto desta montanha tive uma das melhores sensações do pedal. A trilha era toda de cascalho, sinuosa, lisa e serviu para esticarmos as costas. Deitados na trilha descansamos um pouco, tiramos fotos, comemos e apreciamos o belíssimo visual.

image013 image014

Recompostos, descemos até a Canteiros onde fomos muito bem recepcionados.

Single track nos aguarda!

Single track nos aguarda!

Tomamos muito líquido e nos prepararam um café quentinho e queijo minas da Canastra salpitado com azeite e ervas, shoooww!! Pegamos dicas com o cordial proprietário e fomos aconselhados a seguir por estradas até São João Batista do Glória, uma cidade próxima a um dos braços de Furnas, já que seguir pelo caminho que havíamos planejado seria extremamente desgastante para nós. Ah, e sem previsão de horário para a chegada. Então nosso grande “Boss” Luciano entrou em contato com o motorista que nos aguardava no destino e pediu para que ele nos buscasse na cidade.

Partindo da Pousada Canteiros.

Partindo da Pousada Canteiros.

Achamos que estaríamos salvos, pois como disse um dos companheiros: “olha só, só falta um ‘morro’ e depois descemos até a cidade que fica há uns 20km daqui”. Ótimo! Mas o morro referido não era como os de Patos de Minas, era sim uma montanha!!!!! Fazer o que né? E lá fomos nós, ver o que tinha do lado de lá.

Para chegar em S.J.B. do Glória tivemos que atravessar essa montanha a frente.

Para chegar em S.J.B. do Glória tivemos que atravessar essa montanha a frente.

A turma pedalou firme e a noite caiu quando terminamos de subir a serra. A lua cheia clareou nosso caminho e algumas lanternas completaram o serviço. Ressalto que a lua era um detalhe não programado na viagem, mas sim uma feliz e agradável coincidência de datas.

image018

image019

Após contemplarmos “o nascer da lua cheia na Serra da Canastra” seguimos ladeira a baixo. Foi uma descida excelente, longa, muito longa (11 km). Depois pedalamos bastante e o São João Batista do Glória não chegava. E para completar, quando chegou, ainda tinha um topzinho violento até onde avistamos o Rapadura (motorista) que nos aguardava. Pernas para que te quero!! Chegar ao ônibus foi recompensante. Daí seguimos para a Pousada Mata do Engenho, onde dormimos após um jantar “caipira” muito gostoso. A galera estava acabada hehehehe

Dos três dias de pedal esse 1º foi o mais punk. E bota punk nisso, bruto!! Como dizem por aí: “mountain bike purinho!” O relevo e o terreno foram totalmente novos para nós. Nomeamos este dia de “Trilha das Pedras Nervosas”. Posso dizer que aprendemos muito e evoluímos nosso pedal. Tivemos apenas alguns problemas mecânicos durante o percurso (todos resolvíveis – pneus furados e um canote “carboneira” quebrado), nenhuma queda grave. Que o diga o Wandinho, que lutava o tempo todo com seus pedais de encaixe e trouxe para Patos, além das grandes recordações, algumas escoriações e hematomas. Os desafios foram grandes, porém vencidos. Todos nós estávamos realizados e exaustos.

2º dia: Pousada Mata do Engenho a São José do Barreiro

Mal dormi tamanha a ansiedade e o cansaço. Acho que todos ficaram assim, é muita adrenalina! Levantamos cedo, o céu azul e fomos nos preparar. Tomamos um delicioso café da manhã com pão de queijo quentinho, pães, frutas e sucos. Hoje os amigos Denão e Olemar preferiram não pedalar com a turma e seguiram viagem motorizada.

image020

Tudo em ordem partimos até a cachoeira Maria Augusta, dentro da propriedade da pousada. Um pedal de 8 km para começar e chagamos até ela. Lembro que esses danados desses 8 km não foram fáceis hehehehe. Na Serra da Canastra a distância pode ser pequena, mas o caminho….. nada que muita força e empenho não resolvam. E dá-lhe morros que não acabam.

Maria Augusta

Maria Augusta

Desde a pousada tivemos a companhia de um belo cão apelidado por nós de “Funil”, já que na cachoeira de mesmo nome, apenas alguns kms a frente da Maria Augusta, surgiu a idéia de “balizá-lo”.

Muito esperto esbanjava vitalidade e se mostrou incansável. Habilidoso, descia e subia as trilhas sem vacilar e nas estradas esticava as canelas. Era um jovem macho da raça Australian Catlle Dog Red Hiller. Não negou comida e água durante o percurso. E nos seguiu até o fim do pedal, de onde ligamos para os donos e comunicamos a agradável companhia que tivemos durante o percurso (47 km). Disseram que iria lá buscá-lo. Mas acredito mesmo é que o Funil voltou por conta própria.

image022

Funil

Funil

image024

image025

image026

image027

Após muitos kms de montanhas e trilhas chegamos a Cachoeira do Quilombo onde novamente nos refrescamos.

Quilombo

Quilombo

Esse dia também sofreu alterações no percurso, pois como disse antes, na Canastra o caminho pode ser bem difícil.

Aproveitamos e trocamos uma idéia com o “vigia” da cachu, que nos explicou um outro caminho para S.J. do Barreiro. Estávamos bem atrasados e cansados e a parte pior de nosso traçado ainda estaria por vir, certamente pedalaríamos a noite novamente, ao menos nesse dia o pessoal se preparou para as eventualidades, mas em assembléia extraordinária decidimos abortar o percurso e seguir pelo caminho indicado pelo vigia.

Sabendo que subiríamos muito e que o sol estava derretendo tudo, partimos da Quilombo e outra montanha nos aguardava.

image029

image030

image031

Apesar do calor escaldante e da subida interminável, foi um trecho espetacular. Encaramos uma serra com uma parte impedalável, que por fim nos levou a outra serra, a incrível Serra do Rolador, de onde avistamos o paredão rochoso do Parque Nacional da Serra da Canatra, a Cachoeira Casca D’anta, São José do Barreiro, Passos e outros pontos interessantes.

image032

image033

image034

O Funil sempre junto da turma. Esse pico foi palco de fotos espetaculares e ficamos muito contentes por estarmos ali. Chegar até lá foi muito duro!! Mas agora o sol já não castigava e o vento fresco do entardecer levava o calorão para longe.

Como na Canastra não tem moleza, tínhamos que descer a Serra do Rolador e chegar, finalmente, a S.J. do Barreiro. O Thiagão, nativo como é, preferiu valer de seus conhecimentos e foi por uma estradinha bacana e tranqüila, mas a galera não botou muita fé na informação e preferiu descer a já mapeada, mas desconhecida, Trilha do Zé Mazico. O início foi show (só por uns 500m hehehe), depois tornou-se impedalável.

image035

Era muita pedra, buraco, penhasco e xingamentos. Acho que muitos grilaram realmente. Mas é como digo: no pedal o sofrimento é passageiro, depois só lembramos das coisas boas. Além disso, quando esse trecho casca grossa acabou pegamos um sigle track fantástico, liso, sinuoso e para baixo! Com certeza amenizou o que passamos momentos antes em meio àquelas pedras.

image036

image037

Chegamos ao destino e o sol desapareceu, logo fomos tomar e comer algo. Uma excelente pousada, Chalés do Vale e um jantar delicioso nos aguardavam. Foi um dia menos sofrido que o primeiro, mas nem um pouco fácil. A turma pedalou sempre forte e estava extasiada.

3º dia: S.J. do Barreiro a São Roque de Minas

Acordamos cedo. Uma excelente estréia de horário de verão! Tomamos outro excelente café da manha, desta vez mais requintado ainda, pois as proprietárias da pousada eram realmente caprichosas. Novamente alteramos o percurso, pois nosso traçado era pauleira demais para um belo domingo após 2 dias de pedal nervosos.

Hoje partimos em sete para o percurso traçado de última hora pelos amigos Luciano e Thiagão. Denão e Olemar partiram de bike por estrada até São Roque e Marcos e Thiago acompanharam o motorista.

Seguimos por estrada até a cachoeira Casca D’anta, cartão postal da Serra da Canastra, seus mais de 180m de queda livre são imponentes e vistos ao longe. Estávamos mais tranqüilos já que seguiríamos bons trechos por estradas… e lá fomos nós, apenas 8km até a Casca D’anta,! Mas logo vimos o sobe e desce da estrada, não foi fácil, mesmo assim foi excelente.

image038

Para chegar ao poço da cachu percorremos uma trilhinha sombreada e técnica, tiramos várias fotos, como não poderia deixar de ser e chegamos ao famoso spray da Casca D’anta, uma ducha, na verdade. Ficamos lá enquanto podíamos já que a volta (sobe e desce) nos aguardava e depois seguiríamos pelo percurso do Thiago.

image039

image040

Chegamos bem cansados até a 1ª parada em um posto de combustível em S.J. do Barreiro onde nos refrescamos com bebidas geladas e uma caixa d’água na sombra de uma árvore. Devidamente recuperados seguimos para a trilha. Foi espetacular, novamente muitas subidas, muitas subidas, muitas subidas, água e trechos sombreados. Chegamos a uma ponte (pinguela) sobre um rio onde nos refrescamos. Eram as águas do São Francisco descendo após a Casca D’anta.

image041

Depois seguimos por estradinhas sinuosas e sempre subindo e descendo. Poucos kms a frente encontramos uma bica d’água na qual o Wandinho não se conteve e tomou um banho de água mineral! É viu, esse pedal de domingo foi gratificante, duro, mas sem pedras e sem escaladas intermináveis, hoje sim apenas “morros” não “montanhas” hehehhe

image042

Poucos km e chegamos a outra cachu, a da Chinela. Ô lugar que tem cachoeira viu! Demais!

image043

Após outra pausa para nos recompormos montamos novamente nas bikes, agora ao destino final, São Roque de Minas. Apenas 15km, mas sem alívio, três ou quatro subidas bravas, mas todos pedalamos juntos e com muita persistência. Finalmente chegamos. Demos de cara com uma sorveteria, podia ser melhor?? Açaí, picolé, água gelada…. Fomos para a pousada onde o restante da turma nos aguardava e digo: como foi bom chegar!! Que domingo inesquecível, show de roda!!!

Após um banho revigorante arrumamos a tralha e partimos rumo a Patos de Minas. Foi um final de semana perfeito com a turma. Sem grandes ou graves contratempos, somente grandes recordações. Ansiosos pela próxima pedalada.

Obrigado aos amigos pela excelente companhia, em especial ao Luciano, idealizador e realizador de tudo. Vida longa. Pedal na veia!

Compartilhe

Comentários

4 Comentários para Diário de Bordo: Cicloviagem Caminhos da Canastra – Outubro de 2013

  1. Eder disse:

    Espetacular este pedal, já fiz alguns trechos da serra e realmente é pedreira mas compensa. Vc tem o percurso em .GPX?

  2. Cláudio Bessa disse:

    Pedal super show moçada…A Serra da Canastra é sensacional.

  3. Rodrigo Assis disse:

    Poderia me mandar o mapa feito no garmin ? Estamos em uma turma e queremos fazer algo parecido…

    Obrigado.

  4. João Messias Godoy disse:

    Olá. Pedal show. Pretendemos fazer. Poderia me mandar a trilha por GPX ou KML?
    Grato

Deixe o seu comentário:

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *